Quarta-feira, Junho 10, 2009

O desapego é um sentimento de sapato desamarrado
De olhos com garrafas vazias
Um afeto liso sem carinho
Por você, amor.
Uma palavra mal assinada
Um credo sem reza
Um abraço abandonado
Desmanchado.

Quinta-feira, Junho 04, 2009

Eu tenho um ponto de exclamação invertido no meu coração, porque ele carrega um amor anônimo. Não pontua em nenhum lugar, não desaponta ninguém. Mas adianta a minha felicidade de um dia eu reconhecer um sentimento que sempre entendi. Mesmo sem par e sem corpo.

Sexta-feira, Julho 04, 2008

Eu sei que te abandonei como se derruba um som no silêncio
Sei que os sentimentos mais entrestecidos pelo acumulo do pó te perseguir em camadas
Sei que os acertos de ponteiros formavam redemoinhos de desespero
Sei que a roda das lembranças se dobrou em pedaços incompletos
Sei que o voo se quebrou em distância
Mas sei que sabia da sua vida em escandalosas felicidades
Que cantavam em sobrevivência
Não por esperar
Não por amar
Não por querer
Só para sentir.

Segunda-feira, Abril 14, 2008

Agora vai ficar tudo bem? Só porque eu acordei quase indiferente?

Ela chegava com poucas verdades, mas sempre estava acompanhada. Eu me sentia um pouco encabulado com aquela felicidade de mãos dadas; e eu de lágrimas atadas toda vez que eles entravam pela porta ou saíam dela como se fizessem parte de um movimento do vento outonal. Bordando uma queda de suicídio, eu vi seu sorriso mudar de lado, senti seus dedos esconderem o silêncio dele, perdi o rastro dos seus fios de cabelo amanhecidos pelo chão, a cor do esmalte manchado foi lavada, o resgate dos seus olhos apostou em outro porto e a única coisa que me restou foi o verso do seu corpo acenando um adeus.

Eu só entendi que ela pertencia ao desaparecimento quando eu acordei e vi a última fraqueza apaixonada ser indesejada. O vaso de flores, que imitava um pedaço da natureza, que imitava o nosso amor, apareceu separado no chão, caído de uma triste altura, entre terra, flor e plástico. Creio na mão de um vento outonal que me deixou do outro lado da promessa.

Quarta-feira, Abril 02, 2008

Serra do Rio do Castro, Santa Catarina
Foto por Pry Oliveira

Eram passos tão afetuosos que talvez só isso foi um bom motivo para me despertar a um regresso que era de imitar. De imitar quando eu escrevia uma esperança através de um coração sem o cheiro do arrependimento. Percebi que ainda tenho de canto um abajur desligado a espera de um tropeço de justificação.
O lugar que você escolheu para pisar, me deu até uma vontade de mudar para sua cidade. Até permitiria o inverno. Até ele deixaria de ser uma estação encolhida e viveria um encontro com a felicidade. Pelas trilhas de suas pegadas, um suspiro cansado de se esvaziar manifestou-se em uma batida na porta da minha cegueira. E ficou trotando feito mendigo, mas sorrindo paciência. Passeando pela espera de ser aceito e concluído. Por isso, você jamais teve pressa de me encontrar, porque sempre estaria me vigiando.

Quinta-feira, Março 27, 2008

Não me peça para falar teoricamente de poesia.
Eu fico disfarçando um beijo encantado.
As palavras de confete caem pontualmente, sem poder pular uma linha de desconforto. Amarre logo minha insônia irregular que sobrevive só para o nascer do sol. Me deixe consultar a linha provisória como se tivesse um caminho reservado para seguir. Tenho que viver em nuvens cruzadas para nunca me definir. Não deixe a delicadeza tropeçar em qualquer espécie de profundidade. Porque aí, eu vou pedir clemência para o rascunho da urgência chamada felicidade.


O farol fantasma no horizonte
Foto de Manuela Sofia

Quarta-feira, Março 12, 2008

Para o amor desesperado de um casal


"Creio que será permitido guardar uma leve tristeza, e também uma lembrança boa; que não será proibido confessar que às vezes se tem saudades; nem será odioso dizer que a separação ao mesmo tempo nos traz um inexplicável sentimento de alívio, e de sossego; e um indefinível remorso; e um recôndito despeito.
E que houve momentos perfeitos que passaram, mas não se perderam, porque ficaram em nossa vida; que a lembrança deles nos faz sentir maior a nossa solidão; mas que essa solidão ficou menos infeliz: que importa que uma estrela já esteja morta se ela ainda brilha no fundo de nossa noite e de nosso confuso sonho?"
Rubem Braga. A despedida. In: A traição das elegantes

Jogo da velha, foto por

A saudade é um adeus de longa duração. E me parece tão bonito, principalmente, quando você se permite se separar. Por isso, suspenda seu alô logo após o encontro. Se deixe amassar pelo súbito calor precoce causado por uma culpa roubada de um decote apressado.
Todo amor precisa de uma marcha lenta sem satisfação. O amor não é uma agenda com horário marcado. Não ligue, não escreva, não diga como foi o seu dia hoje. Mas quando chove a tarde, você se lembra dele (a). Você estende uma pausa só para sentir a falta de outro alguém, porque é durante a saudade que você reconstitui o melhor do passado. É durante aquele sono despedido que valeu a pena sentir falta de você. É como se cada minuto fosse um horizonte gasto na lembrança e quando você começa fazer tudo isso direitinho, o amor passa a andar diante da chance de sentir que alguém o(a) espera. O amor e você. Você passa a gostar e a saudade deixa de ser tarde demais. Saudade não é um medo que causa perda.