Segunda-feira, Setembro 21, 2009


Tenho tantos projetos na cabeça que eles mal cabem dentro dela. Eles ficam voando como móbiles de bebês pendurados no berço. Quando anoitece, meus pensamentos estão cansados, mas ainda estão olhando para uma pequena luz que pisca e toca um rápido desvio do sono.
O ano nem acabou e tantas coisas que eu não queria aconteceram. Roubaram minha câmera, bateram no meu carro e ainda não aprendi a andar de bicicleta. Mas por outro lado, eu reconquistei algo que mascarei por certo tempo. Eu voltei a escrever. Ainda estou voltando. Aos poucos. Porque mesmo me sentindo aleijada durante esse período cru, eu teimava que reaprender a conviver com a escrita era andar para trás. Acho que respeitei erradamente essa decisão. Eu me esforcei para ficar mais longo possível daquilo que mais gosto de fazer nessa vida, mas no fundo não sabia o que eu estava fazendo, não sabia o que estava provocando. Antes de ser qualquer coisa, eu não sou poeta, só sou uma pessoa que precisa abraçar a escrita.
É incrível como um livro escolhe você bem na hora que você mais precisa. Parece um amigo. Talvez por isso, eu compre uns 15 livros por ano.
Quando comprei o ano passado Cartas a um jovem poeta, de Railke, eu sabia que estava precisando dele, mas tinha muito orgulho ou medo para começar a lê-lo imediatamente. Mas ele foi paciente em esperar. Esperou. Até que eu o resgatei e quase me desmanchei. Minha alma batia com um coração de papel molhado. Logo nas primeiras páginas, cada palavra que eu lia rasgava uma seqüência de lágrimas que terminava em soluços tremidos.
“Procure entrar em si mesmo. Investigue o motivo que o manda escrever; examine se estende suas raízes pelos recantos mais profundos de sua alma; confesse a si mesmo: morreria, se lhe fosse vedado escrever? Isto acima de tudo: pergunte a si mesmo na hora mais tranqüila de sua noite: "Sou mesmo forçado a escrever?” Escave dentro de si uma resposta profunda. Se for afirmativa, se puder contestar àquela pergunta severa por um forte e simples "sou", então construa a sua vida de acordo com esta necessidade. Sua vida, até em sua hora mais indiferente e anódina, deverá tornar-se o sinal e o testemunho de tal pressão. Aproxime-se então da natureza. Depois procure, como se fosse o primeiro homem, dizer o que vê, vive, ama e perde. Não escreva poesias de amor. Evite de início as formas usais e demasiado comuns: são essas as mais difíceis, pois precisa-se de uma força grande e amadurecida para se produzir algo de pessoal num domínio em que sobram tradições boas, algumas brilhantes. Eis por que deve fugir dos motivos gerais para aqueles que a sua própria existência cotidiana lhe oferece; relate suas mágoas e seus desejos, seus pensamentos passageiros, sua fé em qualquer beleza — relate tudo isto com íntima e humilde sinceridade. Utilize, para se exprimir, as coisas do seu ambiente, as imagens dos seus sonhos e os objetos de sua lembrança. Se a própria existência cotidiana lhe parecer pobre, não a acuse. Acuse a si mesmo, diga consigo que não é bastante poeta para extrair as suas riquezas. Para o criador, com efeito, não há pobreza nem lugar mesquinho e indiferente. Mesmo que se encontrasse numa prisão, cujas paredes impedissem todos os ruídos do mundo de chegar aos seus ouvidos, não lhe ficaria sempre sua infância, esta esplêndida e régia riqueza, esse tesouro de recordações? Volte a atenção para ela. Procure soerguer as sensações submersas deste longínquo passado: sua personalidade há de reforçar-se, sua solidão há de alargar-se e transformar-se numa habitação entre o lusco e fusco diante do qual o ruído dos outros passa longe, sem nela penetrar. Se depois desta volta para dentro, deste ensimesmar-se, brotarem versos, não mais pensará em perguntar seja a quem for se são bons. Nem tão pouco tentará interessar as revistas por esses seus trabalhos, pois há de ver neles sua querida propriedade natural, um pedaço e uma voz de sua vida”
Então, entendi porque sempre andava com uma agenda, um caderno, um pedaço de papel no bolso da calça, na bolsa. Eu necessito escrever urgentemente. Não sei porque tamanha gravidade. Mas não preciso entender. Quantas vezes, eu olhava para um homem dentro do metrô e dava uma história para ele. Um conto pronto diante da banalidade que se perdia no vento. O caminho da faculdade-casa era sempre o mesmo, mas um dia olhei para as dezenas de bancas de flores da Av.Dr.Arnaldo e transformei em suspiro relatado em letras. Virou crônica.
Agora entendo porque gosto daquele vento que bate no rosto toda vez que estou esperando, na plataforma, o metrô chegando. Um sopro urbano, mas ainda sim bom.
Me restou voltar para esse lugar, levar meu caderno na bolsa e voltar a andar de ônibus.

Terça-feira, Setembro 01, 2009

A gente tem fé, mas não sabemos o que fazer com ela.

Quinta-feira, Agosto 20, 2009

Sentado num pedaço de esquina, ele se cansou de tentar alcançar a distância que separava seu olhar da vida. Parado conseguiu observar um pensamento de linhagem invisível: o amor se equilibrava em cima de um fio de cores infantis. Um coração com roupa amassada ofereceu uma vaga aleijada. Uma tristeza livre atropelou a música que ele dançava dentro do peito. Nunca mais esqueceria aquelas palavras que rasgaram suas lágrimas silábicas dos olhos. Ele não soube se defender, porque ela assumiu o posto de vítima. Porém esse espaço não era dela. Os olhos encontrando o umbigo. Ela só queria um amor de longe.

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Levantou e começou a caminhar, deixando a história que teve com ela. Foi despedaçando cada momento em pétalas amarelas que se destacavam de um balão recheado de cheiro e sentido. Esse milagre não existe mais. Ela vai flutuar em outra decência sem traumas, sem deixar o sorriso fora do lugar. Largo, no peito dele, ficou o consolo da tentativa de acertar. Só resta o reaproveitamento de um sentimento carregado de despedidas. “A tristeza está em todo lugar”. É cada vez mais difícil confiar sua tristeza em alguém.

Quarta-feira, Junho 10, 2009

O desapego é um sentimento de sapato desamarrado
De olhos com garrafas vazias
Um afeto liso sem carinho
Por você, amor.
Uma palavra mal assinada
Um credo sem reza
Um abraço abandonado
Desmanchado.

Quinta-feira, Junho 04, 2009

Eu tenho um ponto de exclamação invertido no meu coração, porque ele carrega um amor anônimo. Não pontua em nenhum lugar, não desaponta ninguém. Mas adianta a minha felicidade em um dia. Eu reconheço um sentimento que sempre entendi. Mesmo sem par e sem corpo.

Sexta-feira, Julho 04, 2008

Eu sei que te abandonei como se derruba um som no silêncio
Sei que os sentimentos mais entrestecidos pelo acumulo do pó te perseguir em camadas
Sei que os acertos de ponteiros formavam redemoinhos de desespero
Sei que a roda das lembranças se dobrou em pedaços incompletos
Sei que o voo se quebrou em distância
Mas sei que sabia da sua vida em escandalosas felicidades
Que cantavam em sobrevivência
Não por esperar
Não por amar
Não por querer
Só para sentir.

Segunda-feira, Abril 14, 2008

Agora vai ficar tudo bem? Só porque eu acordei quase indiferente?

Ela chegava com poucas verdades, mas sempre estava acompanhada. Eu me sentia um pouco encabulado com aquela felicidade de mãos dadas; e eu de lágrimas atadas toda vez que eles entravam pela porta ou saíam dela como se fizessem parte de um movimento do vento outonal. Bordando uma queda de suicídio, eu vi seu sorriso mudar de lado, senti seus dedos esconderem o silêncio dele, perdi o rastro dos seus fios de cabelo amanhecidos pelo chão, a cor do esmalte manchado foi lavada, o resgate dos seus olhos apostou em outro porto e a única coisa que me restou foi o verso do seu corpo acenando um adeus.

Eu só entendi que ela pertencia ao desaparecimento quando eu acordei e vi a última fraqueza apaixonada ser indesejada. O vaso de flores, que imitava um pedaço da natureza, que imitava o nosso amor, apareceu separado no chão, caído de uma triste altura, entre terra, flor e plástico. Creio na mão de um vento outonal que me deixou do outro lado da promessa.