
Tenho tantos projetos na cabeça que eles mal cabem dentro dela. Eles ficam voando como móbiles de bebês pendurados no berço. Quando anoitece, meus pensamentos estão cansados, mas ainda estão olhando para uma pequena luz que pisca e toca um rápido desvio do sono.
O ano nem acabou e tantas coisas que eu não queria aconteceram. Roubaram minha câmera, bateram no meu carro e ainda não aprendi a andar de bicicleta. Mas por outro lado, eu reconquistei algo que mascarei por certo tempo. Eu voltei a escrever. Ainda estou voltando. Aos poucos. Porque mesmo me sentindo aleijada durante esse período cru, eu teimava que reaprender a conviver com a escrita era andar para trás. Acho que respeitei erradamente essa decisão. Eu me esforcei para ficar mais longo possível daquilo que mais gosto de fazer nessa vida, mas no fundo não sabia o que eu estava fazendo, não sabia o que estava provocando. Antes de ser qualquer coisa, eu não sou poeta, só sou uma pessoa que precisa abraçar a escrita.
É incrível como um livro escolhe você bem na hora que você mais precisa. Parece um amigo. Talvez por isso, eu compre uns 15 livros por ano.
Quando comprei o ano passado Cartas a um jovem poeta, de Railke, eu sabia que estava precisando dele, mas tinha muito orgulho ou medo para começar a lê-lo imediatamente. Mas ele foi paciente em esperar. Esperou. Até que eu o resgatei e quase me desmanchei. Minha alma batia com um coração de papel molhado. Logo nas primeiras páginas, cada palavra que eu lia rasgava uma seqüência de lágrimas que terminava em soluços tremidos.
“Procure entrar em si mesmo. Investigue o motivo que o manda escrever; examine se estende suas raízes pelos recantos mais profundos de sua alma; confesse a si mesmo: morreria, se lhe fosse vedado escrever? Isto acima de tudo: pergunte a si mesmo na hora mais tranqüila de sua noite: "Sou mesmo forçado a escrever?” Escave dentro de si uma resposta profunda. Se for afirmativa, se puder contestar àquela pergunta severa por um forte e simples "sou", então construa a sua vida de acordo com esta necessidade. Sua vida, até em sua hora mais indiferente e anódina, deverá tornar-se o sinal e o testemunho de tal pressão. Aproxime-se então da natureza. Depois procure, como se fosse o primeiro homem, dizer o que vê, vive, ama e perde. Não escreva poesias de amor. Evite de início as formas usais e demasiado comuns: são essas as mais difíceis, pois precisa-se de uma força grande e amadurecida para se produzir algo de pessoal num domínio em que sobram tradições boas, algumas brilhantes. Eis por que deve fugir dos motivos gerais para aqueles que a sua própria existência cotidiana lhe oferece; relate suas mágoas e seus desejos, seus pensamentos passageiros, sua fé em qualquer beleza — relate tudo isto com íntima e humilde sinceridade. Utilize, para se exprimir, as coisas do seu ambiente, as imagens dos seus sonhos e os objetos de sua lembrança. Se a própria existência cotidiana lhe parecer pobre, não a acuse. Acuse a si mesmo, diga consigo que não é bastante poeta para extrair as suas riquezas. Para o criador, com efeito, não há pobreza nem lugar mesquinho e indiferente. Mesmo que se encontrasse numa prisão, cujas paredes impedissem todos os ruídos do mundo de chegar aos seus ouvidos, não lhe ficaria sempre sua infância, esta esplêndida e régia riqueza, esse tesouro de recordações? Volte a atenção para ela. Procure soerguer as sensações submersas deste longínquo passado: sua personalidade há de reforçar-se, sua solidão há de alargar-se e transformar-se numa habitação entre o lusco e fusco diante do qual o ruído dos outros passa longe, sem nela penetrar. Se depois desta volta para dentro, deste ensimesmar-se, brotarem versos, não mais pensará em perguntar seja a quem for se são bons. Nem tão pouco tentará interessar as revistas por esses seus trabalhos, pois há de ver neles sua querida propriedade natural, um pedaço e uma voz de sua vida”
Então, entendi porque sempre andava com uma agenda, um caderno, um pedaço de papel no bolso da calça, na bolsa. Eu necessito escrever urgentemente. Não sei porque tamanha gravidade. Mas não preciso entender. Quantas vezes, eu olhava para um homem dentro do metrô e dava uma história para ele. Um conto pronto diante da banalidade que se perdia no vento. O caminho da faculdade-casa era sempre o mesmo, mas um dia olhei para as dezenas de bancas de flores da Av.Dr.Arnaldo e transformei em suspiro relatado em letras. Virou crônica.
Agora entendo porque gosto daquele vento que bate no rosto toda vez que estou esperando, na plataforma, o metrô chegando. Um sopro urbano, mas ainda sim bom.
Me restou voltar para esse lugar, levar meu caderno na bolsa e voltar a andar de ônibus.
Agora entendo porque gosto daquele vento que bate no rosto toda vez que estou esperando, na plataforma, o metrô chegando. Um sopro urbano, mas ainda sim bom.
Me restou voltar para esse lugar, levar meu caderno na bolsa e voltar a andar de ônibus.
